Primeiras propriedades rurais recebem Certificado do Padrão da Rede ILPF em Dia de Campo em Ipameri

 Primeiras propriedades rurais recebem Certificado do Padrão da Rede ILPF em Dia de Campo em Ipameri

Dia de campo na fazenda Santa Brígida apresentou tecnologias para produção agropecuária sustentável

 

Marize Porto e Sônia Bonato foram as primeiras produtoras rurais a receber o certificado de Propriedade Certificada Padrão de Verificação Rede ILPF [Integração Lavoura-Pecuária-Floresta]. Isso significa que as fazendas Santa Brígida e Palmeiras, ambas no município de Ipameri (GO), seguem os requisitos instituídos pela Rede ILPF, auditadas por uma consultoria independente, garantindo que elas cumprem indicadores ambientais, trabalhistas e legislativos estabelecidos.

 

Os Bonato produzem, em 50 hectares, soja certificada para exportação, silagem de milho para inverno e bovinos para cria, história que começou em 2006. “Quando eu cheguei aqui, no primeiro dia de campo da Marize, eu fui pro campo ver como era feito isso [ILPF]. E falei para o meu marido: ‘Vamos fazer essa prática de integração?’ E ele: “Não, é muito caro, vamos gastar muito’. E eu falei: ‘Então vamos começar com um pedacinho’. Primeiro, fizemos três hectares de milho e fomos aumentando a cada ano”, lembra Sônia.

A produtora conta, pela soja certificada, recebem uma bonificação, graças aos padrões de sustentabilidade implantados com o sistema de Integração Lavoura-Pecuária (ILP). Sobre o certificado, ela diz ter ficado surpresa: “Eu fiquei muito orgulhosa de estar participando disso. Agora nós temos três fontes de renda e todas elas entraram na certificação – do bem-estar animal, da produção com responsabilidade, da preservação do meio ambiente e de nascentes. Isso faz com que o produtor esteja consciente do papel dele, tanto na sociedade quanto dentro da propriedade”.

Já Marize Porto é detentora de uma história de sucesso. Os 4 mil hectares que começou a gerenciar em 2006 vinha de um histórico de pastagens degradadas e atividade pecuária de baixa produtividade. Hoje a Santa Brígida é uma propriedade modelo no sistema ILPF, com produção integrada de grãos, bovinocultura de corte e floresta planta de eucaliptos.

Os certificados foram entregues no tradicional Dia de Campo da Fazenda Santa Brígida, que está em sua 15ª edição, realizado no último dia 27, em Ipameri (GO). A propriedade é referência na implantação do sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta e Unidade de Referência Tecnológica da Embrapa há 17 anos.

Mais de 200 pessoas, entre produtores rurais, consultores, professores e técnicos, acompanharam a apresentação de três temas: Sistema boi safrinha e evolução da Integração Lavoura-Pecuária (ILP) na Fazenda Santa Brígida; Desempenho animal em pastejo rotacionado e sistema de ILP; Produção de bovinos em sistemas de ILPF.

Tecnologias em campo

O sistema boi safrinha foi apresentado aos participantes pelo pesquisador Lourival Vilela. Trata-se do o consórcio de milho com braquiária em uma mesma área com objetivo de criar e, muitas vezes, terminar animais na estação da seca. Villela apresentou o caso do experimento implantado na Embrapa Cerrados (Planaltina, DF), onde novilhas ganharam, em média, 900 gramas de peso vivo por dia, durante 55 dias, em pasto de braquiária brizantha, cultivar BRS Piatã. Já na área da Feira Comigo (GO), no experimento em parceria com o Instituto Federal de Rio Verde, com palhada de milho, foi registrado um ganho de até 1,2 mil quilo de soja.  De acordo com o pesquisador, esse ganho se deve à presença das braquiárias.

O consultor Roberto Freitas relatou a história da fazenda Santa Brígida: “Em 2006, era usado o sistema de preparo de solo convencional, com gradagem da área. Tivemos uma revolução no sistema com a entrada do plantio direto no Brasil Central. Mas, no meu conceito de agricultura, a principal coisa que tem nessa fazenda é a diversidade de cultivos, é o que faz a diferença”.

Freitas conta que eles adotaram na propriedade, além do boi safrinha, o boi safra, tendo em vista os ganhos da produtividade que o pasto proporciona à lavoura. Ele garante que a área, com milho no verão, renderá, no mínimo, cinco sacas a mais de soja, além de um custo de produção mais ameno, devido aos resíduos deixados pelo pasto. “Hoje, eu tenho plena convicção de que a agricultura tropical brasileira se transformou na mais eficiente do mundo por conta desses sistemas, dessa diversificação, que nos deixa em vantagem competitiva diante dos principais produtores”, afirmou

Já o consultor William Marchió contou o caso de uma área que estava tendo uma boa produção de soja: 78 sacas por hectare na safra 2019/2020. Ainda com esse resultado, eles decidiram destinar a área para a produção pecuária. E o resultado foi positivo. O modelo soja- milho-boi, segundo o consultor, rendia R$ 7 mil por hectare. Já o modelo adotado, com pastejo rotacionado, atingiu R$ 10 mil. “Ou seja, o boi está entregando mais valor à fazenda do que todos os outros sistemas. Neste ano, conseguimos produzir 53 arrobas por hectare”, comemora.

Segundo Marchió isso acontece porque o boi é um prestador de serviço fantástico para agricultura, um excelente ciclador de nutrientes: “Ao comer o pasto, o boi estimula o pasto a emitir mais raízes e com isso colocamos na terra a coisa mais preciosa que se pode ter: matéria orgânica. A cada 1% a mais de matéria orgânica no solo, eu consigo reter 180 mil litros de água por hectare. Além disso, o boi extrai muito pouco do solo, diferente do grão, que extrai muito”.

A proprietária Marize conta sobre essa experiência de intensificação: “Fizemos uma adaptação de uma área para um pasto rotacionado. Pegamos 800 cabeças que estavam em uma fazenda de 800 hectares, então era uma cabeça por hectare, e fomos transferindo os animais aos poucos, para fazer uma adaptação. No final, os 800 bois, que estavam em 800 hectares, estão em um pasto de 80 hectares. A surpresa é que eles reagiram muito bem e nós conseguimos implantar uma pecuária sustentável e intensiva”.

Os pesquisadores Roberto Guimarães e Karina Pulronik falaram dos benefícios e dos desafios de colocar árvores no sistema integrado. Eles contam que a competição por luz em áreas de ILPF é o principal limitante da produção. Áreas com mais de 200 árvores por hectare apresentam perdas significativas de forragem, devido ao sombreamento excessivo. Guimarães explica: “Cada 1% a menos de radiação solar na área resulta na redução média de 40 quilos de massa seca de forragem. Em uma área com 40% de sombreamento, temos uma redução de aproximadamente 40% na proporção de perfilhos do pasto, quando comparado ao pleno sol”.

Para lidar com essa situação, após vários estudos e análises, a equipe da Embrapa Cerrados chegou a recomendações para alcançar bons índices para a pecuária em área com floresta: “Com base nos indicadores que obtivemos, os sistemas foram sendo remodelados. Hoje já temos conhecimento que uma população de até 100 árvores por hectare, o distanciamento entre renques superior a 28 metros e o plantio das árvores no sentido leste-oeste favorecem o ganho de peso animal por área em sistemas de ILPF”.

Para o gado de leite, os benefícios são ainda maiores. A sombra proporciona maior produção de leite, melhor qualidade dos embriões e bezerros nascidos com maior peso e melhor imunidade. O consumo de água também é reduzido em 28%, o que, segundo o pesquisador, pode ser usado com um indicador de sustentabilidade, além do alto potencial de sequestro de carbono no solo e no tronco das árvores. “O sistema gera um balanço de carbono muito favorável. Isso pode ser utilizado para agregar valor aos produtos gerados, por serem produzidos com baixa emissão ou emissão neutra de carbono”, completa.

A repercussão da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta

“O dia de campo na fazenda Santa Brígida já é um evento tradicional, quando mostramos práticas que testamos ao longo dos anos na Embrapa, adaptamos na fazenda e agora nós e estamos vendo o resultado das pesquisas funcionando no campo. Isso dá muita credibilidade e fomenta o efeito multiplicador do dia de campos”, destaca Sebastião Pedro, chefe-geral da Embrapa Cerrados.

Ele fala ainda da importância deste evento de 2025: “Temos dado todo o respaldo científico para essa prática [ILPF] e neste ano a fazenda Santa Brígida começa a colher seu eucalipto, que, ao longo dos anos, foi uma poupança que foi sendo acumulada”.

Já Francisco Matturro, presidente-executivo da Rede ILPF, ressalta a importância da pesquisa trabalhando junto com outros parceiros para o avanço da agropecuária brasileira: “Esse é o Brasil que eu gostaria de ver, com a parceria público-privada funcionando, agregando valor, recuperando pastagens degradadas. Hoje temos cerca de 18 milhões de hectares com sistemas integrados, gerando renda, emprego, melhoria do IDH de cada região, melhorando a vida das pessoas e mudando o patamar da agricultura brasileira”.

O jornalista especialista em agronegócio, Frederico Olívio, ao percorrer diferentes regiões do país observa o aumento do uso de tecnologias sustentáveis “Nesses últimos anos, tenho percebido um engajamento ainda maior do produtor rural para uma questão não só econômica, mas de ele ter também uma resposta em termos de ser sustentável e dessa forma ser socialmente mais responsável. E integrar os sistemas é a grande ferramenta que o agricultor pode encontrar para ser mais produtivo e sustentável”.

William Marchió percebe o potencial de escalonamento dos benefícios dos sistemas integrados para a região de Ipameri. Ele conta: “Em 2006, não tínhamos nada, a região era considerada pobre. A John Deere, por exemplo, tinha duas máquinas aqui. Hoje, com certeza tem 800, 1.000 máquinas”. Ele explica que houve a criação de uma onda de desenvolvimento tecnológico: “A fazenda se vestiu dessa responsabilidade e foi difundindo a tecnologia e houve a irradiação da adoção. Então hoje tem produtor que não coloca pecuária, mas coloca braquiária no sistema e não deixa o solo nu na época da seca. Ele começa desse jeito, mas logo entende que aquela pastagem pode se converter em pecuária ou ele pode arrendar para alguém colocar gado. Todo esse movimento que a fazenda irradiou chegou em outras fazendas da região”.

Núcleo de Comunicação Organizacional – NCO

Embrapa Cerrados

 

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